Aquavitae vai acelerar pesquisa sobre cultivo multitrófico
Aquicultura

Aquavitae vai acelerar pesquisa sobre cultivo multitrófico

Objetivo de aumentar a produção aquícola por meio de pesquisas a serem desenvolvidas nos próximos quatro anos

26 de julho de 2019

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Com o objetivo de aumentar a produção aquícola por meio de pesquisas a serem desenvolvidas nos próximos quatro anos, o Aquavitae é considerado o maior consórcio científico já realizado para estudar a aquicultura no Atlântico e no interior dos continentes banhados por esse oceano. Orçado em oito milhões de euros, o projeto reúne 29 instituições de 16 países americanos, africanos e europeus. No Brasil, pesquisadores e o setor produtivo integram a equipe.  
 
O pesquisador da Embrapa Pesca e Aquicultura (TO) Lucas Torati explica como pretendem aumentar a produção aquícola: “Isso se dará, principalmente, pelo desenvolvimento de novas espécies de nível trófico (alimentar) baixo, que estão na base da pirâmide alimentar, como as algas e moluscos, por exemplo”. 
 
Conforme a Embrapa, os cientistas desejam trabalhar em sistemas nos quais sejam reduzidos os desperdícios com cada nível trófico utilizando resíduos de outro. “Por exemplo, ao se colocar em um mesmo sistema de produção um peixe carnívoro com outro filtrador, o resíduo de ração deixado pelo carnívoro vai ser nutriente para as algas que, por sua vez, serão consumidas pelos peixes filtradores. Um sistema de produção diferente, chamado de multitrófico”, falou Torati.
 
Pirarucu (Arapaima gigas), tambaqui (Colossoma macropomum) e camarão (Litopenaeus vannamei) são as espécies que terão as principais pesquisas no Brasil, assim como ostras e macroalgas. Eric Arthur Routledge, chefe de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Pesca e Aquicultura, considera o consórcio internacional uma valiosa conquista. “Ele é fruto de dez anos de articulações que envolveram o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MICTI) com a participação da Embrapa e algumas universidades brasileiras de referência em aquicultura”.
 
Um dos objetivos é aperfeiçoar os protocolos para reprodução do pirarucu, em parceria com a Universidade Estadual Paulista (Unesp) e a Nofima, o instituto norueguês de pesquisa em aquicultura e alimentos que coordenará o Aquavitae. Contribuir para o desenvolvimento de políticas públicas e governança em aquicultura também são metas, além de estudar o desenvolvimento de protocolos de produção de tambaqui e pirarucu, além de realizar pesquisas sobre a cadeia de valor desses peixes.
 
Ação com o setor produtivo
 
A participação do setor produtivo em todos os países em que o Aquavitae será executado é uma de suas características. No Brasil, há sete parceiros da indústria, como a Primar Aquacultura, a primeira fazenda de aquicultura orgânica certificada do País e a Associação Brasileira de Piscicultura (Peixe BR). 
 
O projeto contempla 11 estudos de caso (trabalhos focados em uma espécie, processo ou produto) e nove workpackages (temas transversais que englobam vários estudos de caso) como pesquisas com utilização de sensores, integração de dados, internet das coisas, segurança alimentar, entre outros”, disse Torati. 
 
Tambaqui
 
Para a pesquisadora Fernanda Almeida, da Embrapa Amazônia Ocidental, que está entre os responsáveis pela identificação da fase em que ocorre a diferenciação sexual do tambaqui. Almeida prevê que a descoberta irá contribuir para o desenvolvimento de tecnologias que vão impulsionar a produção, com tambaqui de tamanho e peso bem maiores que o atual.
 
A pesquisadora esclarece que o projeto utilizará engenharia genética para estabelecer protocolos eficientes de produção deste peixe e para aprimorar índices produtivos importantes como crescimento e qualidade da carne. Sistemas produtivos da espécie em viveiros escavados e em barragens também precisam ser aprimorados. “Estudos são necessários para aprimorar ainda mais a criação e causar menos impacto ao meio ambiente”, recomenda Almeida.
 
Camarões, algas e ostras
 
O Bioflocos é um sistema de criação intensivo de alta produtividade que permite o uso de menor quantidade de água, além de ter menos necessidade de tempo e apresentar menor conversão alimentar. O desafio dos pesquisadores brasileiros é desenvolver para a cultura de camarão, macroalgas e ostras no âmbito do “Estudo de Caso 5: Biofloco em sistema integrado multitrófico e Sistema integrado multitrófico em viveiro”, feito em parceria entre  Universidade Federal de Santa Catarina  (UFSC), Unesp e Embrapa Meio-Norte.
 
A pesquisadora da Embrapa, Janaína Kimpara esclarece que “no entanto, alguns gargalos tecnológicos ainda existem ao longo do projeto para possibilitar a aplicação da tecnologia em escala industrial no Brasil". A UFSC será a responsável e as equipes da Embrapa e da Unesp atuarão no design de um sistema de produção integrada de camarões com organismos de baixo nível trófico, como macroalgas e ostras, em parceria com a empresa Primar Aquicultura.
 
Os camarões, que são carnívoros, se alimentam de organismos bentônicos nos viveiros; as macroalgas são autotróficas e assimilam nutrientes inorgânicos dissolvidos; e as ostras, filtradoras, nutrem-se das partículas orgânicas na coluna d’água. “Assim, um único espaço resulta em três produtos diferentes, o que, além dos ganhos ecológicos citados, permite maior diversificação de produtos e mercados para o produtor, além do aumento da resiliência da fazenda”, contou a cientista.
 
Mercado de macroalgas
 
Outra meta do projeto é o estudo da viabilidade técnica e econômica do cultivo de macroalgas e a proposição de modelos de negócios para a exploração da atividade sobre bases sustentáveis. “Calcularemos o índice de sustentabilidade dos cultivos utilizando indicadores multicritério nas dimensões econômica, social e ambiental. Paralelamente, será realizado um estudo de mercado para comercialização de produtos a partir de macroalgas marinhas para alimentação e cosméticos”, informa a pesquisadora.
 
Após esse estudo, está prevista a elaboração de modelos de negócios para subsidiar o desenvolvimento da produção de macroalgas no Brasil, para o atendimento dos mercados alimentício e cosmético.
 
Ostras
 
A promoção de avanços tecnológicos para expandir o cultivo de ostras da espécie nativa Crassostrea gasar em regiões mais quentes também faz parte da lista de objetivos do Aquavitae. De acordo com o pesquisador Jefferson Legat, da Embrapa Tabuleiros Costeiros, a expansão está diretamente ligada à domesticação e avanços das bases tecnológicas para a espécie.
 
De acordo coma publicacção, o cientista informa que 90% das ostras cultivadas no País vêm das águas frias de Santa Catarina, onde predominam o cultivo e consumo da ostra do Pacífico Crassostrea gigas, cuja produção está restrita a ambientes com temperaturas mais baixas. “Águas mais quentes comprometem as taxas de crescimento e sobrevivência dessa espécie”. Conta ainda que "a produção de ostras no Norte e Nordeste é limitada pelas dificuldades em separar corretamente as espécies de ostras nativas para cultivo, em obter sementes de forma regular para suprir os cultivos de engorda e adequar o melhor sistema de engorda para as diferentes regiões do País”.
 
Além da Embrapa Pesca e Aquicultura, farão parte dos trabalhos a Embrapa Meio-Norte (PI), a Embrapa Amazônia Ocidental (AM) e a Embrapa Tabuleiros Costeiros (SE). Também participarão instituições como a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e a Universidade Estadual Paulista (Unesp).
 
 
Créditos da imagem: Cezar Winkler/Flickr
 

 
 

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