Tocantins: quando a água vira produção
Aquicultura

Tocantins: quando a água vira produção

Primeira parte do Especial sobre o Estado revela o desenvolvimento da sua cadeia aquícola com peixes nativos e participação da tilápia

06 de fevereiro de 2026

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Vista do alto, a paisagem do Tocantins revela mais do que a imensidão de suas belas águas. Antes sinônimo apenas de potencial, agora elas refletem um estágio mais maduro da piscicultura estadual. Entre nativos que buscam ganhar escala, a entrada gradual da tilápia e a reorganização institucional da cadeia, o Estado avança para transformar vocação em produtividade, planejamento em investimento e água em cada vez mais pescado.
 
Ao longo de uma semana, a equipe de reportagem da Seafood Brasil percorreu alguns dos principais polos produtivos, centros de pesquisa e unidades de processamento do Tocantins para entender o avanço da aquicultura no Estado. O resultado é um Especial que produzimos em duas partes! 
 
Na primeira parte que você vai ler a seguir, o foco recai sobre a estrutura produtiva, o papel do governo na organização do setor e alguns empreendimentos que vêm puxando a oferta regional. Já a segunda parte mergulha no eixo tecnológico que também dá competitividade ao Estado, com genética, pesquisas, alevinagem e novas espécies de cultivo com potencial de elevar o patamar de produtividade tocantinense. Juntas, as duas reportagens traçam um panorama sobre uma cadeia que busca avançar na aquicultura brasileira.
 
Nos próximos parágrafos, convidamos você para mergulhar com a gente nas águas do Tocantins e assim, entender o que o Estado está fazendo para figurar entre os grandes produtores nacionais. 
 
 
Números que confirmam
 
Ainda modestos em participação nacional, os números da piscicultura no Tocantins avançam. Segundo a Pesquisa Pecuária Municipal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (PPM/IBGE 2024), o Estado superou a marca de 15 mil toneladas de peixes de cultivo, um salto de 31,6% frente ao ano anterior. O ritmo de expansão é reforçado pela Associação Brasileira da Piscicultura (PeixeBR): das 968.745 toneladas produzidas no País em 2024, 18.100 toneladas tiveram origem na região, sendo 17.400 toneladas de espécies nativas e o restante de tilápia. 
 
“O Estado possui grandes oportunidades para a cadeia produtiva da piscicultura, principalmente em função das condições climáticas, qualidade de água, logística e indústria de insumos. Sua localização privilegiada também favorece o atendimento de mercados em várias regiões brasileiras”, resume a publicação.
 
Apesar do momento, a publicação também chama atenção para gargalos ainda sensíveis, sobretudo no campo da regularização ambiental, que afeta principalmente pequenos produtores. A informalidade limita o acesso ao crédito, dificulta a organização produtiva e inviabiliza a competitividade. Essa lacuna ganhou ainda mais peso no contexto da queda recente dos nativos na região Norte.
 
Em 2024, a categoria recuou 1,81% em relação ao ano anterior, somando 258.705 toneladas. “Esse resultado mostra uma tendência preocupante de queda, suave, mas constante, da produção nos últimos anos”, alerta o texto do Anuário.
 
Mesmo assim, a demanda permaneceu aquecida e os preços sustentados, como reforçou o presidente da PeixeBR, Francisco Medeiros. “Bom pelo lado das cotações, mas ruim pelo lado da produção. Tal situação torna-se mais delicada num cenário de crescimento do consumo de peixes de cultivo em detrimento dos peixes de captura. […] Ou seja: é preciso união de todos os envolvidos, incluindo os órgãos públicos responsáveis, para que os nativos retomem o ritmo de crescimento da oferta.”
 
 
Uma nova secretaria para um novo ciclo
 
No Tocantins, um ponto de reforço institucional veio em janeiro de 2023, com a criação da Secretaria de Aquicultura e Pesca do Tocantins (Sepea). Segundo Thiago Tardivo, diretor de Aquicultura, a pasta nasce para transformar o potencial aquícola do Estado em realidade. “O Estado tem uma das maiores potencialidades aquícolas que acabou tendo momento de impulsionamento e outros de retração, sem sequência de políticas públicas para a cadeia do pescado. Com a criação da Sepea em 2023, busca-se reduzir esse gap de fomento para a atividade e promover ações que realmente consigam trazer investimentos em todos os elos necessários do setor.”
 
Conforme ele, o órgão ainda opera em um cenário de consolidação, mas já com ritmo e direção definidos a partir do Plano Estadual de Pesca e Aquicultura do Tocantins 2023–2033.
 
Neste contexto, a Sepea estruturou sua atuação em três frentes estratégicas: pesca artesanal, pesca esportiva e aquicultura. Esse modelo reflete a diversidade produtiva do território, e uma das primeiras ações institucionais foi sediar, ainda no ano de criação, o 1º Encontro Nacional de Pegada de Carbono na Aquicultura, do qual surgiu a “Carta de Palmas”, documento-base para políticas subsequentes.
 
Entre as iniciativas derivadas está o programa Trilha da Pesca e Aquicultura, transformado em lei em 2024. Em outras palavras, trata-se de uma caravana técnica itinerante que conecta governo, instituições de pesquisa, assistência técnica, fomento e bancos públicos para identificar o potencial produtivo específico de cada município. Até agora, 14 cidades já foram visitadas, com Termos de Cooperação assinados, mapeamento de recursos naturais e definição da atividade com maior aderência local.
 
“Todas as ações são desenvolvidas de acordo com a vocação, recursos naturais e humanos que o município tem, buscando fortalecer as potencialidades e resolver os principais desafios”, explica Tardivo.
 
No campo fiscal, ele conta que o setor também avançou, com destaque para a prorrogação até julho de 2027 da isenção do ICMS via decreto nº 6.886, de janeiro de 2025. Ou seja, com a mudança, toda operação interna ou interestadual do pescado de cultivo no território tocantinense passa a ser isenta do imposto. “É fundamental buscarmos benefícios fiscais para o setor até que este esteja consolidado no Estado. Uma das formas que podemos auxiliar é lutando via governo pelas isenções fiscais do pescado da aquicultura para promover sua competitividade em relação a outros Estados.”
 
Se, de um lado, o poder público tenta organizar as bases e reduzir entraves históricos, do outro, o setor produtivo começa a responder com movimentos concretos de retomada e expansão.
 


Polo em reconstrução: a chegada da Dedo de Deus
 
Sob o comando do Grupo Atlântida, a Fazenda Dedo de Deus, em Almas (TO), opera um sistema integrado que reúne produção de peixes nativos, fábrica de ração e frigorífico próprio. O local já foi um importante polo aquícola no Estado, onde abrigou um dos maiores projetos de piscicultura de água doce do Brasil, o antigo Tamborá, que marcou o setor na região Norte.
 
Agora, o empreendimento inicia suas atividades em um cenário distinto, com desafios e oportunidades próprias. A estratégia é reduzir custos, garantir competitividade e fortalecer a cadeia produtiva local, como explica o presidente do Grupo Atlântida e proprietário da fazenda, Marcelo Carassa. “A nossa ideia é fomentar a produção local, com o acompanhamento do que a gente está fazendo e está dando certo”, diz.
 

Da oportunidade à consolidação industrial: a Bonutt no pescado
 
Já a entrada do Grupo Boi Brasil, dono da empresa Bonutt, aconteceu bem antes, há cerca de 13 anos. Desde então, a companhia instalou, em Aliança do Tocantins (TO), uma operação que abrange frigorífico, piscicultura própria, fábrica de ração e uma rede de fornecedores que abastece peixes nativos e tilápia para o mercado. O arranjo nasceu, como lembra o gerente administrativo Roger Eduardo Ferreira Carvalho, de um diagnóstico preciso sobre uma lacuna do setor: “foi uma oportunidade”.
 
Naquele período, a ausência de plantas com Serviço de Inspeção Federal (SIF) aptas ao fornecimento para redes varejistas e a forte presença da informalidade abriram espaço para que o grupo, já tradicional na bovinocultura, utilizasse sua estrutura industrial para ingressar no segmento de pescado.

Hoje, com mais de 100 colaboradores, a empresa mantém ritmo constante na região, embora a trajetória até aqui tenha sido marcada por instabilidade e recomeços, uma realidade que ainda ecoa no setor como um todo. 


 

Este texto faz é a Parte 01 do "Especial" da Seafood Brasil #61. Para conferir esta matéria na íntegraclique aqui. Já a Parte 02 deste Especial vai sair na Seafood Brasil #62. Fique ligado!
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Créditos imagens: Seafood Brasil 

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