O acordo entre Mercosul e União Europeia
Comercialização

O acordo entre Mercosul e União Europeia

Tratado histórico projeta uma nova era de integração entre Mercosul e União Europeia, mas setor corre para superar auditoria de junho

08 de maio de 2026

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Se no século XV as caravelas partiam do Velho Continente em busca de riquezas no Novo Mundo, em 2026, o fluxo de oportunidades pode estar se invertendo. E para o pescado brasileiro, a Europa, com seus mais de 720 milhões de consumidores, permanece como o destino mais cobiçado para a diversidade de produtos que o Brasil é capaz de ofertar.

Em um cenário geopolítico de incertezas, o Acordo entre o Mercado Comum do Sul (Mercosul) e União Europeia (UE), assinado em janeiro, encerra uma jornada diplomática de 26 anos. Mais do que um tratado para redução de tarifas, não é exagero afirmar que o documento simboliza uma “redescoberta” comercial das exportações brasileiras na Europa, assim como a rota inversa: as importações de produtos europeus pelo Brasil.

A UE é hoje o segundo maior parceiro comercial do País, com uma corrente de comércio de bens estimada em cerca de US$ 100 bilhões em 2025. Uma vez ratificado no Parlamento Europeu, o tratado promete fortalecer a diversificação das parcerias comerciais brasileiras e impulsionar a modernização do parque industrial, integrando o Brasil às cadeias produtivas europeias. Já para a UE, a tratativa reduzirá as tarifas sobre diversos itens como automóveis (atualmente até 35%), máquinas (atualmente entre 14% e 20%), produtos farmacêuticos (atualmente até 14%) e muitos outros produtos, economizando para as empresas do bloco mais de 4 bilhões de euros por ano. 


Onde o acordo trava

Apesar do avanço histórico do Acordo entre Mercosul e UE, a negociação enfrentou (e ainda enfrenta) resistência de alguns países europeus - a França, por exemplo, se destacou como uma das principais opositoras, com duras manifestações de agricultores locais. 

Por outro lado, no Brasil, o agronegócio defende a necessidade de mecanismos de proteção. Em março, o Plenário do Senado aprovou o Projeto de Decreto Legislativo (PDL) nº 41/2026, que ratifica o Acordo Provisório de Comércio entre Mercosul e UE. O texto recebeu o aval do plenário e seguiu para sanção presidencial.

Pouco depois, o governo federal publicou o Decreto nº 12.866/2026, que estabelece as chamadas salvaguardas bilaterais, medidas de proteção para produtores e empresários brasileiros. Entre elas estão o aumento de tarifas, a limitação de volumes importados e, em casos específicos, a suspensão de isenções fiscais, garantindo tempo para que os setores impactados se ajustem à concorrência internacional.

Do lado europeu, a situação ainda precisa da aprovação do Parlamento Europeu e de ratificações nacionais específicas - no fim de janeiro, o Parlamento decidiu enviar os termos do Acordo ao Tribunal de Justiça da UE para uma análise de legalidade. A medida, aprovada por uma margem apertada, 334 votos a favor, 324 contra e 11 abstenções, suspende na prática a implementação do Acordo por vários meses, até que o parecer jurídico seja concluído.

Em fevereiro, Olof Gill, porta-voz da Comissão Europeia para Comércio, afirmou que o tratado entraria em vigor de forma provisória assim que fosse ratificado pelos países do Mercosul que já concluíram seus processos internos. Até o começo de março, Argentina e Uruguai haviam finalizado seus procedimentos legais. “O mais provável é que o acordo comece a vigorar em junho de 2026”, diz uma fonte de alto nível diplomático consultada pela Seafood Brasil.

O pacto com o Mercosul não é o único movimento estratégico da UE neste ano. No final de janeiro, o bloco e a Índia formalizaram um amplo acordo que, após duas décadas de negociações, cria uma zona de livre comércio envolvendo cerca de 2 bilhões de pessoas. Ao mesmo tempo, a UE mantém negociações com outras nações, como os Emirados Árabes Unidos, buscando ampliar sua rede de acordos comerciais.
 

E para o pescado?

Se o Acordo entrou para a história do comércio exterior e inaugurou uma nova era para o bloco sul-americano, o cenário global acelerou o desfecho. Afinal, em um contexto de “tarifaço” nos Estados Unidos e de reconfigurações nas cadeias globais de suprimentos, o entendimento com a Europa deixa de ser apenas um tratado comercial. 

Segundo Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), o momento exige leitura estratégica e a pressão externa serviu como catalisador. “É um Acordo que demorou muito tempo para ser negociado, avançou ironicamente por conta da negociação com os Estados Unidos e é estratégico do ponto de vista brasileiro, não apenas pelo comércio, mas também pelo que pode gerar de investimentos europeus na América Latina e no Mercosul, principalmente”, pontua. 

Embora o agro ainda lide com o sistema de cotas, que posterga o livre comércio pleno, Barral enxerga uma transição irreversível para a liberalização. Nesse cenário, a grande vantagem reside no acesso ao mercado “premium” europeu. Ele enfatiza que, “apesar das limitações volumétricas iniciais, o alto valor agregado e o rigor do consumidor europeu garantem preços que tornam a operação vantajosa para o agro  exportador brasileiro.”

Já para o pescado, Jairo Gund, diretor executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Pescados (Abipesca), avalia o tratado como “excelente”, especialmente pela complementaridade de portfólio. “O Brasil já é um grande importador de pescado, e as espécies que eles produzem lá [na UE] não são as que nós produzimos aqui. Então, não há concorrência, pelo contrário: há sinergia nesse processo”, explica.

Segundo ele, a redução tarifária permitirá ao Brasil competir em melhores condições com os produtos asiáticos, reposicionando o País no cenário internacional. “Certamente isso nos dará um fôlego e uma aceleração no crescimento, e o reflexo acaba sendo sentido também no mercado nacional”, afirma. 

Ao analisar a chegada de produtos processados europeus ao mercado brasileiro, Gund descarta qualquer ameaça à indústria nacional. Nesta linha, ele ressalta que o alto custo de produção na Europa funciona como uma barreira natural, protegendo produtos brasileiros de concorrência direta e abrindo espaço para complementaridade de portfólio. “Hoje, por exemplo, não trazemos conservas como mexilhões porque não são viáveis comercialmente”, exemplifica.

Para Thamires Quinhões, diretora executiva da Abrapes, o Acordo tem um peso estratégico que vai além do comércio e representa um marco histórico nas relações entre os dois blocos. “Não se trata apenas de um tratado comercial, mas de um vetor de previsibilidade, competitividade e reinserção do Brasil nas cadeias globais de valor.

Já para Julio César Antônio, presidente da Associação Brasileira de Fomento ao Pescado (Abrapes), para as empresas importadoras, o Acordo tende a ser positivo. “Porém, seus efeitos serão graduais e dependem tanto do desenho final da redução tarifária quanto da interação com a tributação interna, incluindo o ICMS, que em muitos estados gira em torno de 12% para pescado importado”, pondera.  

Do ponto de vista do consumo, a entrada de pescado europeu com tarifas reduzidas deve redesenhar preços, mix de produtos e hábitos do consumidor brasileiro, com potencial de impacto projetado para o médio e longo prazo. “Ainda que o Acordo preveja prazos de desgravação tarifária mais céleres para pescado, não há previsão sobre quando o Acordo efetivamente entrará em vigor”, pontua Quinhões. 

Assim, embora o Acordo traga oportunidades, a diretora executiva da Abrapes comenta que há pontos críticos que precisam ser considerados como a assimetria competitiva, a tributação interna e as barreiras não tarifárias, a exemplo dos requisitos de rastreabilidade e de sustentabilidade que devem ser claros, harmonizados e exequíveis. “A Abrapes reconhece as oportunidades de ampliação de portfólio e de competitividade que o Acordo pode trazer, mas defende regras equilibradas, transparência, previsibilidade e apoio à adaptação do setor, de forma que as importações, a indústria e as futuras exportações brasileiras possam se desenvolver de maneira sustentável e coordenada”, finaliza.
 

Este texto faz é parte da matéria de Capa da Seafood Brasil #62. Para conferir esta matéria na íntegraclique aqui.   Quer ficar por dentro dessas e outras notícias do universo do pescado? Acesse nossa seção de notícias e também não deixe de seguir os perfis das Seafood Brasil no Instagramno Facebook e no YouTube!


Créditos imagens: Seafood Brasil 

 

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