Surto de rabdomiólise prejudica venda de pescado em regiões do País
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Surto de rabdomiólise prejudica venda de pescado em regiões do País

Pescadores, aquicultores, feirantes e supermercadistas reclamam que o impacto é ocasionado principalmente por informações falsas

28 de setembro de 2021

Com o aumento dos registros de suspeitas e de casos confirmados de rabdomiólise, condição característica da síndrome de Haff, conhecida como “doença da urina preta”, a venda de pescado vem sendo severamente prejudicada em alguns Estados do País. Pescadores, aquicultores, feirantes e supermercadistas reclamam que o impacto é ocasionado principalmente pela propagação de informações falsas sobre a doença. 
 
Procurado pela Seafood Brasil, Eduardo Ono, presidente da Comissão Nacional de Aquicultura (CNA), informou que a entidade está acompanhando o problema pelo relato de produtores e entidades estaduais, mas ainda não há números confiáveis para divulgar. “São estimativas, sem mensuração formal”, contou.
 
O impacto nas vendas fez o presidente da Comissão Permanente de Pesca e Aquicultura da Assembleia Legislativa do Pará (Alepa), Orlando Lobato (PMN), afirmar que entrará ainda esta semana com o pedido de auxílio emergencial para comerciantes de peixe do Estado, relata o O Liberal
 
No Amazonas, uma das regiões mais críticas, o portal do Governo reforça que nas feiras de produtos regionais da Agência de Desenvolvimento Sustentável do Amazonas (ADS), os peixes comercializados, tanto na capital quanto no interior, são provenientes da piscicultura.
 
Até a terça-feira (21/09), o boletim da Secretaria de Estado da Saúde (SES-AM), que por meio da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas – Drª Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP) tem monitorado os casos suspeitos de rabdomiólise no Estado, registrava 78 casos suspeitos da síndrome.
 
A SES-AM e a FVS-RCP disseram estar seguindo duas frentes paralelas de atuação. “Nós temos duas frentes de trabalho, uma delas, da Secretaria Estadual de Saúde com a Fundação de Vigilância em Saúde, para caracterizar esses casos e garantir o manejo clínico adequado, principalmente, desses pacientes que foram acometidos por rabdomiólise”, detalhou a diretora-presidente da FVS-RCP, Tatyana Amorim.
 
De acordo com a diretora-presidente, a outra frente é composta por um grupo maior, que inclui instituições de fora do Amazonas. É o caso do laboratório da Universidade de Santa Catarina, que está fazendo a análise do pescado coletado no Amazonas, para identificar toxinas que podem estar presentes nos peixes.
 
Indicação é de manter o consumo 
 
Ainda no Amazonas, a diretora-presidente da FVS-RCP também ressaltou que a Fundação não impõe, neste momento, restrições ao consumo de peixes. “Tínhamos uma restrição no município de Itacoatiara, por conta de lá haver uma maior incidência do número de casos, mas tudo vai depender dos resultados da investigação. Se acharmos prudente suspender novamente, nós vamos alertar, mas, por enquanto, comam peixe de cativeiro e de vida livre. Não tem nenhuma restrição”, concluiu.
 
Na Bahia, que soma 21 notificações neste ano para a doença de Haff, o Ministério da Saúde está trabalhando com as equipes dos estados para fazer a definição do que é caso suspeito e caso confirmado. Além da Bahia, Ceará, Pará e Amazonas vêm monitorando suspeitas e pelo menos duas mortes estão em investigação nos estados do Norte, conta Bahia Notícias.
 
Mesmo que mais de 80% dos casos estejam relacionados ao consumo de peixe, a Vigilância Epidemiológica do Estado também não recomenda que as pessoas parem de comer pescadoDe acordo com Eleuzina Falcão, coordenadora de CoAgravos da Diretoria de Vigilância Epidemiológica (Divep), essas questões se encontram em estudo.
 
“Sabe-se que os estudos apontam a presença toxina, mas ela não está identificada. Os estudos seguem. Inclusive o Ministério da Saúde tem trabalhado com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), laboratório de toxologia, justamente no sentido de tentar determinar qual é essa causa, verificar de que toxina se trata, mas no momento não tem”, disse.
 
Consumidores em alerta
 
O portal a Crítica informa que com os registros de números significativos da Síndrome de Haff, peixarias de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, já sentem um aumento nos cuidados dos clientes, na hora de escolher um peixe - embora o Estado ainda não tenha casos confirmados.
 
As carnes comercializadas em Campo Grande, são de origens variadas, podendo vir da região Sul do País ou da Argentina. Em um dos estabelecimentos de venda de peixes mais conhecidos da cidade, a Peixaria do Mercadão, o questionamento da procedência do produto cresceu nos últimos meses. 
 
“A clientela está preocupada com o aumento de casos, então, eles querem saber de onde o peixe vem e como ele vem, mas nós estamos tranquilos, porque só compramos da região sul do País”, alega um atendente do estabelecimento. 
 
O G1 divulgou que a venda de peixes no Mercado do Ver-o-Peso, em Belém, também foi afetada pelas suspeitas de síndrome de Haff, segundo os vendedores do local. Na manhã da quinta-feira (23), vereadores da Câmara Municipal de Belém estiveram no mercado Ver-o-Peso para acompanharem a situação.
 
Os trabalhadores locais pediram melhores condições para armazenamento do pescado, especialmente com a queda das vendas. Na semana passada, eles já tinham protestado relatando a queda nas vendas, que chega a toneladas, segundo eles. Uma audiência pública também foi realizada sobre a doença na Assembleia Legislativa do Pará (Alepa) para tentar encaminhar soluções para o impacto no setor pesqueiro.
 
Na tentativa de ajudar os pescadores de comunidades ribeirinhas de Santarém, no oeste do Pará, os trabalhadores receberam cestas de alimentos durante uma expedição organizada por várias entidades na semana passada. Foram cerca de 13 toneladas de alimentos distribuídos para 1.974 famílias de pescadores. 
 
Para o diretor de Patrimônio e Finanças da Colônia de Pescadores Z-20, João Mário, o setor está com o futuro incerto, como informa o O Liberal. “O que preocupa mesmo, é que os consumidores não têm comparecido nem para comprar outras espécies, o que está causando problemas financeiros aos nossos pescadores”, disse. A Colônia, que possui 5.866 associados, teme que o público sofra ainda maiores prejuízos com a ausência de comercialização.
 
O veículo ainda informa que o movimento dos restaurantes nos distritos que abrigam balneários bastante procurados na região metropolitana da Grande Belém costuma ser intenso, especialmente nos finais de semana, mas a procura por peixes caiu drasticamente.
 
Em um estabelecimento localizado em Icoaraci, cujo carro chefe da cozinha é o pescado, a retração dessa demanda chega a 70%. No Estado, a Secretaria de Estado de Saúde Pública do Pará (Sespa) informou, por meio do Centro de Informações Estratégicas de Vigilância em Saúde (CIEVS), que investiga 10 casos suspeitos da síndrome de Haff.
 
O Mirante Rural, da TV Globo, neste domingo (26), mostrou que pequenos piscicultores, na Região Metropolitana de São Luís, no Maranhão, também estão acumulando prejuízos. Eles não conseguem vender os peixes por conta da notícia falsa de contaminação da urina preta. 
 
Estratégias de combate
 
Diante de tanta preocupação, uma das estratégias de combate ao medo do consumo de pescado tem sido o incentivo ao público através da realização de festivais. O primeiro Festival do Peixe de Parauapebas, sudeste paraense, por exemplo, juntou a Feira do Produtor com organização da Cooperativa de feirantes da cidade, Colônia de Pescadores, Associação Profissional de Gastronomia e apoio da Prefeitura Municipal da cidade e reuniu milhares de pessoas no último domingo.
 
Ao todo foram quatro toneladas de peixe cru distribuídas durante a semana, e mais três mil quilos assados no evento. “O resultado foi extraordinário, é o momento de reagir contra essa mentira que tem se espalhado e causado prejuízos gigantescos na cadeia de produção e comercialização, em Paraupebas”, afirmou o prefeito Darci Lermen, de acordo com a versão online do Diário do Pará. 
 
Já no Piauí, no sábado (25) e domingo (26), o Mercado do Peixe, localizado na zona Leste de Teresina, voltou a registrar aumento no movimento de clientes após festival gastronômico realizado na sexta (24).
 
De acordo com o administrador do local, Francisco Macedo, o Festival do Peixe tinha o intuito de alavancar as vendas que tinham caído nas últimas semanas por conta das notícias sobre a doença. Em entrevista para o Viagora, Francisco revelou que o festival contou com mais de mil pessoas e que irão realizar novos festivais no futuro.
 
“A gente fez essa manifestação com os permissionários, porque a população estava acreditando nessas fake news, mas futuramente vamos continuar fazendo eventos para atrair os clientes para virem ao mercado do peixe.”, disse o administrador. De acordo com informações dos permissionários, as vendas caíram por volta de 75% e alguns peixes como o tambaqui tiveram uma redução de 90%.
 
Na última terça-feira (21), a Secretaria de Estado da Saúde (SESAPI) publicou uma nota enfatizando que o estado do Piauí não possui nenhum caso suspeito ou confirmado da doença de Haff.
 
Impacto nos preços
 
Pesquisa conjunta realizada pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e Secretaria Municipal de Economia (Secon) aponta que, no mês de agosto, em comparação ao mês de julho, 21 espécies de peixes tiveram queda de preços, do total de 29 pesquisadas nos mercados municipais de Belém, no Pará. 
 
Segundo o estudo, divulgado pelo O Liberal, as maiores quedas ocorreram nos preços do Curimatã, com recuo de 11,93%, seguido da Piramutaba (queda de 10,48%); Cachorro de Padre (-10,15%); Pescada Gó (- 8,25%); Sarda (- 7,74%); Xaréu (- 7,45%) e Traíra (- 7,44%). Porém, no mesmo período, oito espécies ficaram mais caras, com destaque para o Peixe Pedra, com alta de 6,92%, seguida do Tambaqui (aumento de 3,74%); Tamuatá (alta de 3%) e Bagre (2,56%).
 
Dono de um estabelecimento que comercializa pescado, na Feira da 25, Edmilson de Jesus acredita que a queda no preço pode ser explicada, principalmente, pelo período de aumento na pesca de espécies como dourada, filhote e pescada amarela. Porém ele admite que a doença da urina preta também tem influenciado na redução de preços. “O que baixou bastante foi o filhote e a dourada. A expectativa é que tem que melhorar, porque com essa notícia [da doença] caiu quase 100% a nossa venda. A gente espera que isso passe para as vendas voltarem de novo”, completou.
 
Créditos: Pixabay

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