Alimentos azuis: oportunidade de melhoria com menos impacto ambiental
Pesca

Alimentos azuis: oportunidade de melhoria com menos impacto ambiental

8 de junho é o Dia Mundial dos Oceanos

Ademilson Zamboni - 08 de junho de 2022

Mais de 2 bilhões de pessoas não têm acesso à alimentação adequada, e a crise climática coloca outro bilhão de indivíduos em risco de insegurança alimentar e econômica em todo o planeta, conforme dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Diante desse cenário, e aproveitando que 8 de junho é o Dia Mundial dos Oceanos, cabe destacar o quanto é urgente discutir o potencial dos oceanos como fonte de proteínas de boa qualidade para a nutrição humana.
 
Pequenos peixes pelágicos, como sardinhas e anchovetas, algas cultivadas e espécies bivalves, como ostras, mariscos e mexilhões, são ricas fontes de nutrientes. O mar deve ser, cada vez mais, uma importante fonte de alimentos para a humanidade, desde que a pesca e a aquicultura sejam realizadas com base científica, com critérios e limites que permitam a saúde dos ecossistemas marinhos. Nessa perspectiva, vem ganhando força um movimento global em prol do “alimento azul”.
 
A primeira avaliação sistemática de como os alimentos azuis contribuem para a segurança alimentar foi publicada pela revista científica Nature, em setembro de 2021. O estudo faz parte do Blue Food Assessment, uma iniciativa colaborativa que envolve mais de 100 pesquisadores de várias partes do mundo e analisa, sob diferentes aspectos, a contribuição da comida azul aos sistemas alimentares.
 
Os resultados revelam que o efeito combinado de uma dieta que aumenta os alimentos de origem animal e vegetal aquática e reduz carnes vermelhas e processadas, além de diminuir a pegada de carbono, pode levar a uma redução do risco de hipertensão, doenças cardíacas e vasculares, diabetes, câncer colorretal e câncer de mama. 
 
As doenças cardiovasculares, em grande parte causadas por fatores relacionados à dieta, são as que mais contribuem para a mortalidade global, sendo a causa, no ano de 2017, de 17,8 milhões de mortes em todo o mundo, 397 mil delas somente no Brasil.
 
O aumento do consumo de pescado pode enriquecer as dietas em termos de micronutrientes, incluindo ferro, cálcio, vitamina B12, zinco, ácidos graxos, ômega-3, entre outros. Infere-se, assim, que os alimentos azuis representam uma oportunidade estratégica e necessária para melhorar a nutrição da população mundial com menores impactos ambientais, quando comparados à uma dieta baseada em proteínas de origem terrestre.
 
Para trilhar esse caminho, um passo importante é definir medidas que driblem as principais barreiras às dietas compostas pelos alimentos azuis, como preço e acessibilidade. Se olharmos para o passado, observamos que as transições históricas dos sistemas alimentares exigiram investimento público em pesquisas e tecnologias, e a implementação de políticas públicas para a transição almejada. 
 
Também é fundamental que, com o amparo da ciência, possamos entender a nova demanda por pescado, garantindo um real aumento do seu consumo, ao mesmo tempo em que se reduz a pressão sobre estoques que se encontram sobrepescados, como algumas espécies de atuns e diversos peixes e crustáceos capturados em ambientes de recifes de corais.
 
A pesca excessiva ocorre, principalmente, pela falta de medidas eficientes e coordenadas entre os países para gerir os estoques pesqueiros transnacionais, por lacunas normativas no gerenciamento das Zonas Econômicas Exclusivas (ZEEs), por falta de transparência e fragilidades no controle e na fiscalização da atividade pesqueira. Lidar com essas questões em cada nação, e em nível global, é outro passo necessário para avançar rumo a uma atividade pesqueira cada vez mais sustentável.
 
O Brasil, por exemplo, ainda carece de dados confiáveis e disponíveis para a tomada de decisão pelos gestores da pesca, o que é um fator complicador. O relatório Auditoria da Pesca – Brasil 2021, produzido pela Oceana, aponta que desconhecemos a situação de 93% dos 117 estoques pesqueiros alvos da frota comercial marinha nacional. Do pouco que se conhece, o cenário também não é bom: quatro espécies possuem estoques sobrepescados e duas estão sendo exploradas em níveis acima da sua capacidade de reposição natural.
 
A Auditoria mostrou ainda a fragilidade de uma das principais bases para a construção, implementação e fiscalização de políticas públicas: a legislação. A atual Lei Federal 11.959 não consegue cumprir o papel necessário para a promoção da pesca sustentável. Além de não endereçar responsabilidades, não prevê a garantia da manutenção dos estoques pesqueiros em patamares biologicamente seguros e muito menos que seja utilizada base científica para a definição de normas de pesca. Fatos que refletem a urgência de sua modernização.
 
Pescarias de alto impacto e baixa eficiência ambiental também ameaçam os ecossistemas marinhos e comprometem a produção pesqueira em longo prazo. Um exemplo é a pesca de arrasto, cujas redes interagem diretamente com o fundo marinho causando distúrbios e impactos ambientais de larga escala que tendem a reduzir a produtividade dos estoques pesqueiros. 
 
Além disso, a baixa seletividade das redes gera, comumente, volumes gigantescos de descartes de diversas espécies de pescados sem interesse comercial ou que não possuem ainda o tamanho adequado para comercialização, agravando quadros de sobrepesca.
Cabe mencionar, ainda, um fator que segue quase sempre apenas à margem da gestão pesqueira, embora devesse ser prioridade na agenda de trabalho do setor: a poluição. Estimativa da Organização das Nações Unidas (ONU) aponta que, a cada ano, ao menos oito milhões de toneladas de plástico acabam nos oceanos – algumas pesquisas falam em 11 milhões. 
 
Somente o Brasil polui o mar com, no mínimo, 325 mil toneladas de plástico por ano, como mostra o relatório “Um Oceano Livre de Plástico”, também publicado pela Oceana. Essa poluição compromete a saúde dos ambientes aquáticos, gera perda da biodiversidade e prejuízos para a própria pesca, principalmente a artesanal.
 
Sistemas alimentares apoiados na comida azul exigem um ambiente marinho saudável. Restaurar a abundância dos oceanos e ampliar a oferta de alimentos, protegendo comunidades vulneráveis que dependem da atividade pesqueira para geração de renda é o caminho para a transição que pode definir o futuro da alimentação humana. Se administrados de maneira adequada, os alimentos azuis têm potencial para contribuir com a alimentação nutritiva de mais de um bilhão de pessoas todos os dias. E cabe aos legisladores e gestores das políticas públicas, ao setor privado, às organizações do terceiro setor e aos cientistas, impulsionar essa necessária transformação.
 
Créditos: Mulheres pescadoras selecionam pescado em Jacumã, no Rio Grande do Norte. Foto: Christian Braga/Oceana

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Sobre Ademilson Zamboni
 
  • Diretor-geral da Oceana Brasil. Oceanólogo, mestre e doutor em Engenharia Ambiental pela Universidade de São Paulo.
 
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