O pescado na era das canetas emagrecedoras
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O pescado na era das canetas emagrecedoras

Para o setor, entender a fisiologia por trás é o primeiro passo para posicionar a proteína em uma dieta que abre mão do volume

18 de junho de 2026

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Os análogos de GLP-1 não são apenas um fenômeno estético, mas uma reconfiguração do metabolismo humano. Para o setor de pescado, entender a fisiologia por trás é o primeiro passo para posicionar a proteína em uma dieta que abre mão do volume e foca na densidade nutricional. Confira a reportagem completa na Capa da Seafood Brasil #62.
 
 
Pela primeira vez na história moderna, a indústria de alimentos não luta apenas contra a concorrência, mas contra a ausência de fome. O fenômeno se dá à medida que os análogos de GLP-1 (Glucagon-like peptide-1), presentes em medicamentos com semaglutida (Ozempic/Wegovy), liraglutida (Saxenda/Victoza) ou tirzepatida (Mounjaro). Essas são as chamadas “canetas emagrecedoras”, utilizados para diabetes tipo 2 que avançam pelo mundo e estão revolucionando o tratamento da obesidade e do sobrepeso. E, indo além do que provavelmente foram projetados para fazer, estão reconfigurando o consumo alimentar em escala global.
 
Em 2025, nos EUA, cerca de 12% dos adultos revelaram já ter utilizado os medicamentos GLP-1. Já os gastos totais com o fármaco aumentaram mais de 500% entre 2018 e 2023 (de US$ 13,7 bilhões para US$ 71,7 bilhões), conforme a Food and Drug Administration (FDA).
 
No Brasil, o relatório do Itaú BBA destaca que as vendas desses medicamentos somaram cerca de R$ 10 bilhões em 2025, representando 4% do varejo farmacêutico nacional. O ano também foi marcado por um salto de 77% nas importações, elevando a participação desses fármacos na receita de grandes redes como RD Saúde, Pague Menos e Panvel para o patamar de 8% a 9%. A projeção é que essa fatia chegue a 20% até 2030, quando o mercado de agonistas do GLP-1 poderá atingir R$ 50 bilhões, atendendo a cerca de 15 milhões de usuários.
 
A escala desse fenômeno no Brasil ganha contornos de política pública e sinaliza uma capilaridade irreversível. Em março deste ano, o Rio de Janeiro se tornou a primeira cidade brasileira a oferecer o medicamento Ozempic pelo Sistema Único de Saúde (SUS), um movimento que antecipa a pressão por acesso universal. 
 
 
Agindo e transformando
 
O GLP-1 é um hormônio produzido pelo intestino logo após as refeições. Conforme explica a médica PhD e especialista em gastroenterologia, Débora Pacheco, ele atua como um coordenador metabólico em alguns órgãos principais. “No estômago, ele diminui o esvaziamento gástrico. Com isso, o paciente fica mais tempo com comida no órgão, tendo menos fome e mais saciedade”, explica. Segundo a especialista, o hormônio ainda atua diretamente no sistema nervoso central, informando ao corpo que a necessidade de alimentação já foi suprida, regulação essa que é fundamental para o controle da compulsão. 
 
Essa alteração profunda nos mecanismos de apetite exige uma nova lógica também no âmbito nutricional, como destaca a nutricionista Daiana Reis. Conforme ela, no corpo, essa variável introduz o desafio da intolerância a grandes volumes. "O esvaziamento gástrico lento dificulta os modelos alimentares baseados em variedade por quantidade. O foco se desloca do 'que comer' para o 'quanto cada escolha entrega' em termos nutricionais dentro de porções reduzidas", afirma.
 
A profissional aponta que neste cenário, as proteínas assumem o papel central da dieta, sendo indispensáveis para preservar a massa magra e manter a funcionalidade do organismo durante o emagrecimento acelerado. 
 
Performance alimentar e vantagem ao pescado
 
Um dos efeitos colaterais mais comuns relatados pelos pacientes em fases iniciais do uso de análogos de GLP-1 é a "aversão" espontânea a alimentos pesados (gordurosos, volumosos ou de digestão mais lenta).
 
Neste cenário, o pescado leva uma vantagem competitiva sobre outras proteínas, como comenta Daiana Reis. "Enquanto cortes de carne vermelha possuem fibras musculares mais rígidas e maior teor de gorduras saturadas, as proteínas do peixe têm uma estrutura de tecido conjuntivo menos resistente, o que confere ao pescado uma digestibilidade superior e mais rápida”, afirma. 
 
Ela completa que uma das maiores preocupações de quem perde peso muito rápido é a perda de massa muscular. Nesse contexto, segundo ela, “não é apenas a quantidade total de proteína que importa, mas a eficiência com que ela é digerida, absorvida e utilizada pelo organismo.” 
 
Para mais, a distribuição proteica tende a ser prejudicada, exigindo escolhas que concentrem qualidade nutricional em menor volume e com maior facilidade de consumo. “Aqui, o pescado tem aminoácidos essenciais, o que favorece sua utilização mesmo em pequenas porções”, destaca Reis.
 
Logo, o pescado se posiciona como uma alternativa tática. “Ele permite que o paciente atinja suas metas proteicas diárias sem atingir o limite de sua capacidade gástrica, garantindo emagrecimento saudável, funcional e focado na perda de gordura, não de músculos.”
 
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Créditos da imagem: Canva

 

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